Já passava das 15h quando Lyoto Machida apareceu para a entrevista marcada em um hotel na Zona Sul do Rio de Janeiro. Usando uma camisa de patrocinador, calça jeans e uma bota ortopédica no pé esquerdo, o lutador caminhava com alguma dificuldade, e assim que se sentou para iniciar o bate-papo, pediu um balde de gelo para colocar o pé. Ao retirar a bota, a visão impressionou. O pé de Machida apresentava um grande inchaço e algumas marcas roxas, que davam a impressão de uma fratura. Lyoto mergulhou o pé no balde com gelo com uma leve expressão de dor, que sumiu instantaneamente. Ignorando a água gelada, o peso-médio do UFC conversou com o Combate.com, falando sobre a luta contra Mousasi e analisou seus dois prováveis próximos adversários - Vitor Belfort e Chris Weidman.
- O Vitor é um cara muito perigoso, que tem um golpe forte e tem uma
boa velocidade e combinação no boxe, e tenta surpreender a cada luta com
um golpe diferente, tentando buscar um novo caminho. É um ponto forte
dele e que eu tenho que estar atento. Mas eu já treinei com o Vitor, e
conheço o jogo dele. Sei que ele mudou de lá pra cá, mas a essência dele
eu sei qual é, e o conheço um pouco mais. O Weidman é um cara novo que
apareceu e que se destacou. Tenho acompanhado desde a luta contra o
Demian Maia, e vi que ele é um cara forte, consistente, que tem um
wrestling muito bem definido, um chão muito bom, mas vejo muitos buracos
no jogo dele em pé. Ele é completo de MMA, mas não é um especialista na
luta em pé. O meu estilo de luta não muda para enfrentá-lo, mas a
estratégia muda. Se eu tenho que chutar mais, socar, chamar para o meu
golpe... a estratégia muda, mas o estilo, não.
Lyoto também revelou um momento importante em sua vida como lutador: a
primeira vez que venceu o irmão Chinzô, tido por ele mesmo como o mais
talentoso dos três filhos de Yoshizo Machida dentro da arte marcial do
caratê.
- Acho que o Chinzô é o mais habilidoso dos irmãos, porque ele ganhou
muito mais no caratê do que eu. Eu sempre tentei vencê-lo através do
esforço, mas não conseguia ganhar. Até que um dia deu um estalo e eu
consegui. A partir daquele dia tudo mudou, e as coisas já não eram mais
como antes. Aquilo mexeu comigo, pelo ganho de confiança, e pode ter
mexido com ele na perda de confiança, não sei. Dentro da arte marcial o
Chinzô tem mais habilidade, e eu consegui me esforçar para buscar essa
distância.
Confira em tópicos a enrevista completa de Lyoto Machida:
Luta contra Mousasi em Jaraguá do Sul
"Eu achei que foi uma luta técnica, mas que teve os dois buscando em
certos momentos. Eu tentei conectar e ele também, no estilo dele,
tentando buscar uma definição. Foi uma luta técnica, mas uma luta forte,
em que nós dois nos machucamos um pouco buscando o nocaute ou a
finalização. Eu acho que se tivesse mais 30 segundos de luta eu teria
ganho por nocaute. No fim da luta eu encaixei um golpe de cima para
baixo e ele sentiu, ficou de quatro, meio que se protegendo e pedindo
pra parar. Mas ali soou o gongo e a luta acabou naquele exato momento,
me tirando a chance de finalizar o combate. Mas diante um lutador no
nível em que nós dois nos encontramos nem sempre dá para vencer por
nocaute. Foi uma luta muito dura, que todo mundo estudou para chegar ali
e definir."
Frieza de Mousasi
"Aquele é o jeito dele. O Mousasi mostra muita tranquilidade e frieza.
Ele é um autêntico lutador profissional, um cara que se prepara para
lutar sem se importar com quem irá enfrentar e não faz show. Ele se
preocupa em ganhar a luta e mostrar o melhor dele. Nesse quesito eu
pareço um pouco com ele. Eu quero fazer o meu trabalho e acabou, não me
preocupo em dar show ou em provocar, falar do adversário. Senti ele
neutro quanto a isso."
"Roubo" do boné na entrada para o octógono
"Eu nunca esperava que fossem pegar o boné, porque nunca havia
acontecido isso comigo (risos). Já tinha acontecido com o Minotauro até,
mas comigo não. Eu passei rápido para entrar no octógono e, quando
senti arrancarem o boné da minha cabeça, eu disse pro cara devolver,
porque eu precisava dar uma satisfação ali. O cara jogou o boné de
volta, porque deve ter se sentido constrangido. O show ia parar ali por
causa dele. Eu não podia entrar sem o boné, e fiz o sinal pra ele
devolver. Isso eu nunca tinha visto na minha vida (risos)."
Confirmação da disputa do cinturão
"Nada foi falado claramente, mas é lógico que eu quero uma disputa de
cinturão. Mas não posso viver em função disso, dar cada passo na minha
vida pensando nisso. Se eu fizer isso, vou deixar de viver esperando uma
resposta dos outros, e não minha. Eu tenho que dar a minha resposta,
que é fazer o meu caminho. Se tiver que fazer mais uma luta, eu faço,
porque ela vai me deixar mais tarimbado para a disputa do cinturão. Eu
estou em um bom ritmo, lutando a cada três ou quatro meses no máximo, e
isso é importante para esperar a chance de lutar pelo cinturão."
Talentoso ou esforçado?
"Eu sou mais esforçado. Desde quando comecei a minha carreira, eu
busquei muito os resultados porque eu sempre achei que esse era o meu
meio de vida. Meu pai me ensinou isso. Se eu quisesse ser um lutador
profissional, eu teria que estar pronto para lutar a qualquer momento,
sempre estar treinando. Poderia não estar pronto para a minha melhor
performance naquele dia específico, mas sempre estar me movimentando,
sabendo que um desafio pode aparecer a qualquer hora. E o desafio, às
vezes, pode aparecer fora do octógono mesmo, como um desafio emocional,
psicológico, que te faça enfrentar situações. A arte marcial te dá essa
base para ter autoconfiança e autoestima para saber a resposta certa no
momento certo. Pensando nesses valores, eu me considero um cara muito
esforçado, buscando uma melhor qualidade de vida no lado profissional e
pessoal."
Decisão de morar nos EUA
"Morar nos EUA foi uma decisão tomada dentro de um período que eu
queria passar lá, e eu acabei ficando. Mas eu me adaptei muito bem, e
resolvi ficar. O plano inicial era passar três meses me preparando para
uma luta, e eu gostei de ficar lá porque eu senti que teria um foco
melhor, me afastar das pessoas que eu gosto para poder render e explorar
mais do Lyoto lutador. Talvez, em um outro momento, eu não conseguisse
explorar esse lado, e tirar só 30% do que eu poderia. Hoje eu consigo
tirar mais, porque o foco é muito maior. Não sei explicar bem o porquê,
mas é maior."
Lesão no pé esquerdo
"A lesão aconteceu no terceiro round, quando eu chutei a perna do
Mousasi e ele levantou o joelho, e isso machucou o meu pé. Depois eu
machuquei ele também em um chute que eu bloqueei, e ele parou de chutar.
Não ficou tão ruim quanto eu imaginava, já estou andando melhor. Depois
da luta estava muito inchado, eu não conseguia andar. Ainda não vi a
luta novamente, mas acho que foi parecido com o bloqueio que o Weidman
fez e que causou a fratura no Anderson, porque assim que eu chutei e
pegou no joelho dele, o local inchou. Quando eu fui para o intervalo, eu
sentei no córner e vi que tinha um calombo em cima, e eu achei que
tinha machucado."
Inspirações como lutador
"Quando jovem, eu analisava muito a família Gracie e os caras que
tinham sucesso e eram grandes lutadores, como o Fedor Emelianenko,
Minotauro e outros que me inspiravam. Hoje eu busco essa inspiração
dentro de mim mesmo, analisando as minhas lutas e o que eu tenho que
melhorar. Eu já estou no topo da minha carreira, e vou ter que parar de
lutar daqui a uns três ou quatro anos, dependendo de como o meu corpo
vai reagir."
Lutaria pelo Japão?
"Eu já lutei por um escritório no Japão, mas ninguém nunca me chamou
para representar o Japão, até porque eu não iria. Não seria justo. Eu
tenho um pouco do meu sangue japonês, agradeço a cultura que eu aprendi
através do meu pai, mas eu sou brasileiro e não tenho porque defender
uma outra nação. Não preciso disso."
Carreira como treinador
"Depois dessa carreira de lutador é uma tendência ser treinador,
ensinar. Não sei exatamente se formar atletas, mas faz parte da minha
característica. Eu sou formado em educação física e gosto de ensinar.
Não sei ainda se eu formaria atletas ou se seria um educador para ajudar
as pessoas a buscar um outro lado da arte marcial que nós não
conseguimos enxergar. No esporte de alto rendimento nós só vemos o lado
do atleta, do resultado. Mas no lado pessoal a arte marcial tem muito
mais a oferecer do que isso. Imagina você conseguir fazer uma pessoa
superar um problema e dar respostas positivas dentro da vida dela. Acho
que isso pode ser muito mais gratificante do que formar um atleta."
Atuação do irmão Chinzô na sua carreira
"Meu irmão sempre me acompanhou muito nos treinamentos. Hoje, comigo
morando nos EUA, ele vai para lá de vez em quando passar uma temporada
lá, não necessariamente perto da luta. Nessa, por exemplo, ele não foi
para lá próximo da luta contra o Mousasi, mas como ele já conhece todo o
meu jogo, em uma semana a gente consegue desenvolver uma estratégia
para cada luta."
Quem é o mais habilidoso entre os Machida?
"Acho que o Chinzô é o mais habilidoso dos irmãos, porque ele ganhou
muito mais no caratê do que eu. Eu sempre tentei vencê-lo através do
esforço, mas não conseguia ganhar. Até que um dia deu um estalo e eu
consegui. A partir daquele dia tudo mudou, e as coisas já não eram mais
como antes. Aquilo mexeu comigo, pelo ganho de confiança, e pode ter
mexido com ele na perda de confiança, não sei. Dentro da arte marcial o
Chinzô tem mais habilidade, e eu consegui me esforçar para buscar essa
distância."
Participação do pai na preparação para as lutas
"Meu pai até fala, mas quando você tem uma essência formada, uma
característica marcante dentro do seu estilo, é muito fácil de fazer uma
modificação na sua área. Não é necessário um mês de treinos para você
poder atuar. Aquele chute que eu dei no Randy Couture, por exemplo, eu e
o meu pai juntos treinamos por três ou quatro semanas, três horas por
semana. Não só aquele chute, como também técnicas parecidas, e na hora
da luta o golpe saiu. Não precisei de seis meses para aprimorar aquele
golpe. Na semana da luta meu pai analisa, me vê fazendo o movimento e me
diz para corrigir uma coisa ou outra. Em minutos eu consigo melhorar,
porque está dentro da essência."
Sem comentários:
Enviar um comentário